Motivação e Mudança Comportamental

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Como seres racionais e emocionais que somos, todos nós podemos viver dilemas quando uma mesma ação ou comportamento que realizamos nos causa consequências prazerosas e dolorosas. Responder rispidamente ao cônjuge, estudar apenas em véspera de provas, passar longas horas no videogame, fazer compras no shopping sem consultar o limite do cartão de crédito, comer alimentos excessivamente calóricos… são alguns comportamentos que podem nos causar problemas em várias áreas da vida. As consequências destes comportamentos que mais valorizamos são aquelas que irão guiar nossas atitudes futuras: se foi muito gostoso ficar uma hora a mais na cama de manhã, iremos preferir continuar assim ao invés de ir para a academia antes do trabalho. Porém, quando as consequências dolorosas e desagradáveis começam a falar mais alto ou ainda quando experimentamos consequências mais prazerosas com um novo comportamento, nós começamos a modificar nossas percepções e vontades. Assim nascem as intenções de mudar.

Muitos de nós queremos ser pessoas melhores, mais focadas e disciplinadas. Mas por que será que este é um processo tão difícil, a ponto de vários de nós desistirmos de iniciar ou pararmos no meio do caminho? Experiências prévias de fracasso, ausência de aprendizagem ou de formação de hábitos no passado, os tipos de crenças que nós temos em nossas capacidades e recursos, as perspectivas futuras que queremos alcançar, as pressões e exigências que o ambiente nos faz, nosso nível de autocontrole e persistência… São algumas das variáveis que influenciam certamente neste processo.

Um psicólogo norte americano chamado James Prochaska desenvolveu juntamente com seus colaboradores nos anos 1970 o Modelo Transteórico de Mudança de Comportamento (Transtheoretical Model of Change), no qual são apontadas determinadas etapas pelas quais todas as pessoas passam ao longo de um processo de mudança. Em cada etapa há diferentes níveis de motivação, expectativas e atitudes relacionadas. Quando este modelo foi elaborado, sua intenção era auxiliar psicólogos clínicos, em uma avaliação inicial, a identificar os melhores recursos de tratamento a partir do estágio em que o paciente se encontra quando busca ajuda profissional (Yoshida, 2002). Foi inicialmente usado em larga escala na avaliação de dependentes químicos e agora é estendido para os mais diversos segmentos de comportamento nas áreas de saúde. Os estágios são os seguintes: pré-contemplação, contemplação, preparação, ação e manutenção.

No estágio de pré-contemplação, a motivação é inexistente e a pessoa não pretende mudar num futuro próximo. Mesmo que haja pressão externa, feedbacks de outras pessoas ao redor e até mesmo reclamações a respeito do comportamento, a pessoa não avalia seu comportamento como problemático. “A resistência em reconhecer ou modificar um problema é a marca da pré-contemplação” (Prochaska, DiClemente e Norcross, 1983). Infelizmente, este é o caso de diversas pessoas que se encontram em dependência de álcool ou que apresentam compulsões. Elas simplesmente dizem a si mesmas e aos outros “Eu estou bem, sei o que faço e paro quando quiser”.

A pessoa avança para o estágio de contemplação no momento em que começa a admitir que tem um problema e considera que é necessário mudar algo para assim poder enfrentar a situação desconfortável. Há conscientização, embora a pessoa não chegue realmente a agir de modo diferente. Há também a ambivalência, ou seja, oscilação de sentimentos opostos em relação à mudança. Prochaska DiClemente e Norcross (1983) colocam: “Isto é contemplação: saber para onde você quer ir, mas ainda sem estar preparado para ir para lá”.

Quando há uma efetiva tomada de decisão, a pessoa avança para o estágio de preparação. Nesta etapa, ela já se percebe como responsável pela mudança que quer alcançar, planeja as ações e estratégias que deverá adotar avaliando os recursos disponíveis. O esforço e a motivação são presentes, porém a consistência é inexistente e as tentativas podem não ser ainda bem-sucedidas ou persistentes. Podemos, por exemplo, fazer compras saudáveis no domingo para iniciar uma dieta na segunda-feira e escorregar com uma pizza na quarta-feira.

Ao sair do “plano das ideias” e das intenções, a pessoa pode efetivamente enfrentar as mesmas situações com novos comportamentos. Ou seja, ela pode agir! E deste modo, quando ocorrem mudanças consistentes, permanentes no tempo, bem-sucedidas com a realização de objetivos traçados e com reais evidências de que houve empenho e esforço a pessoa se encontra no estágio de ação. Este período é essencialmente importante para a pessoa ressignificar, ou seja, atribuir novos significados ao modo como ela se percebe consigo mesma e em suas relações com os outros. Uma pessoa que tinha receio em falar em público, ao experimentar situações desafiadoras continuamente, passa a notar que adquiriu traços de comportamento que redefinem sua identidade.

Como não basta apenas realizar, deve haver também persistência das mudanças ao longo de um período. Por isso, é importante que a pessoa evolua para o estágio de manutenção. Aqui o interesse e esforço são aplicados para refinar as habilidades desenvolvidas, consolidar os ganhos e impedir recaídas. Mesmo que a mudança se mostre alcançada e os novos comportamentos sejam apresentados sem a mesma dificuldade inicial, certo esforço e dinamismo são necessários para que a qualidade dos resultados seja garantida.

Neste momento, dois desfechos opostos podem se dar, sendo um deles a recaída e outro o término. Na recaída, há o retrocesso para algum dos estágios anteriores após melhoras e mudanças terem sido implementadas. Muitas pessoas acabam recaindo e tendo que recomeçar o processo novamente. É importante que tenhamos um olhar compreensivo para aceitar que recair também faz parte do processo de mudar e que isso não significa o fracasso total ou a anulação de todos os esforços já realizados. Sempre que caímos, podemos levantar e nos tornar cada vez mais fortes.

 O outro desfecho possível é o estágio de término, quando os padrões de conduta resultantes da mudança estão suficientemente estáveis e não há recaída ou de retrocesso. Podem ser chamados como casos de “cura”, como por exemplo, casos em que pessoas que se tornaram vegetarianas não sentem mais vontade de consumir carne ou alimentos de origem animal, pessoas que eram alcoolistas rejeitam o álcool ou quando um conflito pessoal ou interpessoal foi inteiramente superado.

Interessante tudo isso, não é!? Por fim, vale refletir que cada um de nós oscila entre esses estágios para diferentes comportamentos. Um processo de psicoterapia pode ser crucial na mudança de hábitos e comportamentos que desejamos alcançar mas não conseguimos sozinhos. Juntamente com um terapeuta, podemos identificar nossas forças e fraquezas, identificar gatilhos relacionados à persistência de comportamentos que queremos abandonar, aplicar e avaliar diferentes estratégias, diminuir a ansiedade, aumentar nossa autoconfiança e o autocontrole… e muito mais!

Referências

Yoshida, E.M.P. (2002). Escala de estágios de mudança: uso clínico e em pesquisa. Psico-USF, v.7, n.1, p. 59-66.

Prochaska, J. O.; DiClemente, C. C. & Norcross, J. C. (1993). In search of how people change: applications to addictive behaviors. American Psychologist, 47, p. 1102- 1114.

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