Por que integrar Neurociências e Educação?

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Texto originalmente publicado em 27 de janeiro de 2014 no blog www.sinapsaprender.wordpress.com

Atualmente, com o avanço da ciência e tecnologia, muito tem sido descoberto sobre a estrutura e o funcionamento do cérebro. Porém, se o conhecimento derivado das diversas pesquisas não alcançar a sociedade e não melhorar a qualidade de vida das pessoas, todo o esforço científico será em vão. Por isso, integrar conhecimentos de diferentes áreas que estudam a aprendizagem e desenvolvimento humano – educação, biologia e ciências cognitivas –  é a proposta da Neurociência da Educação (também chamada de Neuroeducação ou Mind, Brain and Education, nos países de língua inglesa). Dentre as principais descobertas científicas, destaca-se a possibilidade de visualizar o funcionamento cerebral on-line com técnicas de neuroimagem, o mapeamento genético detalhado e os procedimentos de avaliação cognitiva desenvolvimentos pela Neuropsicologia.  Com a possibilidade de observar biologicamente os processos de aprendizagem, podemos agora verificar o impacto de intervenções educacionais no funcionamento cerebral e cognitivo, ao invés de contar apenas com os tradicionais e questionáveis métodos de avaliação escolar.

Considerando que a educação tem papel fundamental na aprendizagem de múltiplas habilidades e conhecimentos culturais que foram construídos há milhares de anos por diferentes civilizações, os neurocientistas da educação têm grande interesse em entender melhor como desenvolvemos habilidades para manipular as ferramentas culturais da linguagem escrita e numérica, além de construir melhores procedimentos de ensino considerando o processamento linguístico e matemático. Também são alvos de grande interesse e dedicação destes pesquisadores os transtornos do neurodesenvolvimento e da aprendizagem, como o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), a Dislexia, a Disgrafia e a Discalculia.

 Para que as principais questões relacionadas à mente, cérebro e educação sejam estudadas, é muito importante uma interação recíproca entre as práticas dos pesquisadores e dos educadores. É necessário contínuo esforço de ambas as partes para que os cientistas entendam e colaborem diante dos reais problemas vividos pela educação, assim como os educadores do nosso país busquem atualização e capacitação científica que auxilie o ensino. Os cientistas precisam conduzir mais experimentos que auxiliem no entendimento de situações da vida real (e não apenas dos laboratórios). Dos educadores, o esforço surge com o questionamento crítico dos métodos de ensino e a adoção de práticas educacionais com evidências científicas comprovadas. Uma vez que a aprendizagem é um fenômeno muito complexo e influenciado por diversos fatores, a pesquisa científica e a prática educacional sempre enriquecem uma à outra, pois a ciência auxilia o educador para melhor ensinar e a educação contribui em sua complexidade para alimentar novas curiosidades e temas de pesquisa sobre a aprendizagem. 

Reconhecendo o valor das visões filosóficas e ideológicas e educacionais mas indo para além delas, várias áreas do conhecimento têm avançado na compreensão da aprendizagem e desenvolvimento humano, bem como das práticas em sala de aula; dos processos cognitivos relacionados à leitura, escrita e matemática; dos ambientes potencializadores da aprendizagem e; por fim; dos aspectos motivacionais. Em alguns países, estes conhecimentos científicos têm auxiliado a tomada de decisões inteligente em políticas públicas educacionais (o que ainda não é o caso do Brasil, infelizmente), no lugar de achismos, modismos e ideologias ultrapassadas.

É importante considerar também que, mesmo sendo uma ferramenta valiosa para melhorar a educação, a ciência em si mesma está longe de ser a única fonte de respostas para os problemas educacionais. Vivemos em um mundo com dilemas éticos/morais e sócio-econômicos difíceis que também afetam o modo como as crianças se desenvolvem e aprendem. A ciência é um campo de conhecimento jovem e as neurociências são ainda bem recentes, com maior avanço nas últimas décadas. Por isso, entendemos que as sociedades atuais caminham para a criação de práticas multidisciplinares, éticas e baseadas na compreensão holísticas do desenvolvimento humano.

Neste panorama, o blog Sinapse Aprender tem como propósito fazer um link de como se pode tirar proveito prático daquilo que é estudado nos laboratórios de pesquisa em neurociências e educação. Serão abordados temas relacionados principalmente ao desenvolvimento cognitivo, avaliação e intervenção nos transtornos de aprendizagem, métodos de ensino e práticas educacionais baseadas em evidências científicas. Espero que as informações disponibilizadas sejam úteis e colaborem com o seu crescimento profissional e pessoal!

 Fonte: Fischer, K.W.; Daniel, D.B.; Immordino-Yang, M.H.; Stern, E.; Battro, A.; Koizumi, H. (2007). Why Mind, Brain, and Education? Why Now? Mind, Brain, and Education, 1 (1), 1-2.

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